Urgia a necessidade de escolher um dia do festival Lock The Target, aproveitando o fim-de-semana que se avizinhava no Porto. Tendo em conta a vertente “Industrial/electrónica/Gótica(??)” do cartaz cabia-me a árdua tarefa de escolher dos três dias aquele que para o meu gosto seria o menos mau e foi aí que Attrition me soou a música angelical no meio da restante tortura auditiva.
Tanto quanto possível, tentarei deixar os gostos pessoais de fora ao fazer esta critica, mas não espere o leitor uma total isenção até porque criticas isentas são uma utopia…
Dois de Outubro: primeiro dia do festival. Pelo que tinha ouvido das bandas no myspace o cartaz deixava-me curioso, principalmente pelos portugueses In[Perfection], senhores de um EBM interessante em estúdio e pelo duo Inglês, Attrition, cuja junção de elementos clássicos e electrónicos resulta tão bem …
Ora, um fim de semana fora é sinónimo de uns dias sem andar pelas páginas de Internet do costume e isso revelou-se um erro enorme neste. Ao chegar à bilheteira do concerto no Maus Hábitos, e depois de uma tentativa gorada de assassinato pelas portas do elevador (descobri que há um síndrome do Martim Moniz e comecei a sofrer dele…), fui informado pelo simpático e competente senhor que me vendeu as entradas que o cartaz tinha sofrido uma alteração de ultima hora e que mais tarde vim a descobrir ser apenas uma, mas duas: os In[Perfection] tinham passado para o alinhamento de Sábado sendo trocados por um tal Ezylohm_tek, que por sua vez, teve que se chegar à frente após a saída de cartaz de Tactical System.
Após estas peripécias e com o atraso que infelizmente os nossos eventos nos habituam aproveitei para conhecer o espaço, beber uma imperial no pátio interior e fumar uns cigarritos. O espaço é agradável, como associação cultural que é tem um bar amplo, o tal pátio (refugio dos fumadores), várias áreas de exposições e uma sala de eventos ao vivo. São 23h35 quando entro na sala já com o Ezylohm_Tek no palco… entrei e ainda demorei uns segundos para me aperceber se estaria alguém a fazer algum tipo de ensaio ao som ou se era mesmo já um concerto – tal como referi no inicio não sou fã de musica electrónica muito menos deste industrial que hoje se ouve, mas não percebo um concerto em que o artista está praticamente imóvel atrás de um portátil – que me perdoe o Sr. que, sei hoje, teve que se atirar para a fogueira à ultima da hora. Como a musica não me agradava (a espaços fez-me lembrar anúncios a cds de tunning) e o “músico” não estimulava, a visão de uma mesa vazia ao pé da janela teve mais encanto e sentado permaneci o resto do primeiro concerto, à semelhança de quase todos os presentes na sala.
A entrada do duo Lokomotiv em palco foi festiva e desde logo se percebeu que jogavam em casa, durante todo o concerto as “bocas” entre o público e a banda revelaram cumplicidades. O concerto revelou, aos meus ouvidos, uma banda agressiva e pouco melódica, honestos e coerentes – “o que escutas em casa é o que vês ao vivo”. Foi a interacção atrás referida que me fez levantar por uns momentos da cadeira para ver melhor a actuação de Nelson e Alex, o concerto começou com um cheiro a NIN, aliás referido e muito bem pela minha companhia, “Animal” (será este o nome da música?) abriu as hostilidades com alguma qualidade que forçosamente foi decaindo porque para quem não gosta, este tipo de musica acaba por ser cansativo e repetitivo. Mas isto não é uma crítica musical e o que é certo, é que o público do inicio ao fim esteve com a banda, dançou e gostou, já eu, lá para o meio já bocejava e questionava que raio seriam aqueles focos que se viam da janela.
E chega a hora dos Attrition… Sin, que já andava para trás e para a frente desde que chegamos ao espaço, manteve o vaivém até ao minuto em que subiu ao palco. As expectativas eram altas e mais altas ficaram após as duas desilusões, pessoais. Cabia-lhes a terrível tarefa de me fazer esquecer tudo o que havia passado até então, e penso que em parte, terá sido isso que os prejudicou, tanto na minha avaliação como na sua prestação – não consigo tirar da cabeça a ideia que se sentiram perdidos e provavelmente ligeiramente alterados: é que desde o concerto de CD1334 na Caixa, que me apercebi que ingleses e vinho tinto não combinam, depois do concerto está bem, mas antes é um risco enorme…
Competentes, ao vivo soam mais crus, a componente electrónica sobressai, a meu ver demasiado, o que faz com que a (boa) voz de Sin (que em disco permite uma ligação ambiental e quase neo-clássica) pareça colada com cuspo.
As músicas ao vivo, pelos factos referidos anteriormente, acabam por ganhar outra dimensão sempre que a voz de Martin Bowes aparece. De certa forma, a sua voz dá-lhes uma componente mais teatral, já que actua como contrapeso à voz de Sin e nela encontra o complemento que a parte instrumental ao vivo não lhe consegue dar.
Martin é um performer, é teatral e isso notou-se ao longo do concerto: sempre de incenso na mão – Sin tentou o mesmo com uma garrafa de vinho, mas sem igual sucesso. O seu lado performativo continua mesmo quando o erro surge e a folha A4 com a letra precisa sair do bolso – esta é incorporada como mais um elemento do concerto, rasgando-a aos poucos durante a música e lançando os pequenos pedaços para o público. Martin fez, inteligentemente, o que Sin não conseguiu quando na última música da noite também ela se esqueceu da letra: assumir o erro e inclui-lo na sua prestação de modo a não fazer mossa. Em resumo, embora longe do brilhantismo que oferecem em disco, os Attrition mesmo que dessem o concerto deitados seriam de longe o melhor da noite.
Os concertos, a falta de tabaco e de dinheiro para mais cerveja, não permitiram que o escriba e sua companhia permanecessem para a “after party” com os Djs Yggdrasil e Djane Infekt[ion].
As fotografias, como é hábito, foram tiradas com um telemóvel e a qualidade é… duvidável.





