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terça-feira, 12 de maio de 2026

Culatra - "Capítulo Primeiro: 1985-1989 / Sombras e Fantasmas" (Pós-80's label)

Segundo o press release, os Culatra foram "provavelmente a primeira banda portuguesa assumidamente gótica". Com actividade entre 1985 e 1992, nunca chegaram a gravar um disco. Esta colectânea, pela Pós-80's, reúne "os registos raros e inéditos do material gravado entre 1985-1989, provenientes de uma maquete, ensaios e um tema ao vivo no RRV".
Não tenho qualquer lembrança dos Culatra (o que não significa que nunca tenha ouvido falar deles). Estou impressionada com a qualidade desta banda de Lisboa que merecia mais reconhecimento, e lamento que tenham acabado sem deixar discografia. A diferença que o Bandcamp teria feito naquela altura! Nestes registos, finalmente trazidos à luz do dia em 2026, encontro influências do melhor da época: Joy Division, Bauhaus, Sisters of Mercy e outras referências pós-punk incontornáveis. Este é o som que eu recordo do Rock Rendez Vous. A qualidade das gravações é que é fraquinha, como seria de esperar de ensaios, maquetes e música ao vivo.
Para descobrir agora no Bandcamp, já que esta música esperou tanto tempo entre sombras e fantasmas.

According to the press release, Culatra were "probably the first explicitly Portuguese goth band". Even though they were active between 1985 and 1992, a record was never released. This compilation by the Pós-80's label brings together "rare and unreleased recordings from 1985 to 1989, taken from demos, rehearsals, and a live track at the RRV [Rock Rendez Vous]".
I have no recollection of Culatra (which doesn't mean I've never heard of them). I'm impressed by the quality of this Lisbon band, which deserved more recognition, and I regret that they disbanded without leaving a discography. The difference Bandcamp would have made back then! In these recordings, finally brought to light in 2026, I find influences from the best of the era: Joy Division, Bauhaus, Sisters of Mercy, and other inescapable post-punk references. This is the sound I remember from Rock Rendez Vous. The recording quality is weak, as one would expect from rehearsals, demos and live music.
After waiting so long amidst shadows and ghosts, Culatra’s music can finally be discovered on Bandcamp.

 

pos-80s.bandcamp.com/album/cap-tulo-primeiro-1985-1989

  

segunda-feira, 5 de janeiro de 2026

💜Canções preferidas, álbuns relevantes e descoberta de 2025 / 2025: favourite songs, relevant albums, discovery💜

Há alguns anos que tenho feito esta lista mentalmente, mas, em 2025, para não chegar ao fim do ano e não me lembrar de nada, fui mais esperta e comecei a tomar nota de potenciais canções preferidas desde Janeiro. 
A meio do ano apercebi-me de que devia também ter anotado lançamentos relevantes, aqueles que até podem não incluir uma das minhas canções preferidas mas que merecem atenção e audição.
Este ano recebi uma média de 10 lançamentos por dia nas áreas do gótico, post-punk, darkwave e afins, o que dá uma brutalidade de cerca de 3600 álbuns, singles, EPs e remixes, e ouvi tudo, em muitos casos mais do que uma vez. Mas acontece que sou muito esquisita e selectiva, o que também significa que estas escolhas são, na minha opinião, o melhor do melhor.
Esta é uma lista de canções preferidas de 2025 unicamente segundo o meu gosto pessoal. Se falhou alguma coisa importante, é possível que eu não esteja na mailing list. Por favor deixem em comentários.

For several years now I've been making this list mentally, but, in 2025, I got smarter and I've written down potential favourite songs since January, so I wouldn't forget all about them by the end of the year.
Midway through the year, I realised that I should have also noted down relevant releases, the kind that may not include any of my favourite songs but that do deserve attention and a listen.
This year I received an average of 10 releases a day in the goth, post-punk, darkwave and similar genres, which amounts to a brutality of 3600 or so albums, singles, EPs and remixes, and I've listened to everything, in many cases more than once. The thing is, I’m very picky and selective, which means these choices are, in my opinion, the best of the best.
This is a list of my favourite songs of 2025, based solely on my personal taste. If I've missed anything important, it's very possible that I'm not on that mailing list. Please let me know in the comments.


Canção preferida de 2025 / Favourite song of 2025

💥Valisia Odell - An Arabian Tale💥

Esta canção apanhou-me de surpresa e foi paixão instantânea. Obrigada à malta do Festival Entremuralhas/Extramuralhas por ter trazido Valisia Odell. Já não é a primeira vez que só conheço uma banda porque vem ao festival de Leiria.👍

This song took me by surprise and it was an immediate infatuation. Thank you guys from Festival Entremuralhas/Extramuralhas for bringing Valisia Odell. It's not the first time I've only discovered a band because they have brought them to Leiria's festival.👍


Outras canções preferidas de 2025 / Other favourite songs of 2025

Black Angel - LUXX

Black Rose Burning - Into The Black

Bootblacks - Leipzig (feat. Oskar Carls [VIAGRA BOYS])

Corpus Delicti - Crash

Creux Lies - Apocalypto

Date at Midnight - Useless Love

Echoberyl - Morgana

Gothzilla - DES PER ATE 

Long Night - Ghost

Octavian Winters - Hermine 

Peter Murphy - The Artroom Wonder

Pink Turns Blue - Stay For The Night

Rosa Crux - 1335

Rosetta Stone - Connect The Dots

Talk To Her – PLD

The Chameleons - Saviours Are A Dangerous Thing

The Red Moon Macabre - Black Chiffon Melee *

The Red Moon Macabre - Carmilla *

* É muito difícil escolher lançamentos de The Red Moon Macabre porque o projecto tem sido tão prolífico que eu perdi a conta por volta dos 20 álbuns em 3 anos (mas já vai em mais). Tentando ser justa, escolhi uma canção de Janeiro e outra de Novembro. Aproveito para destacar o álbum "Shelley's Monster" (que inclui "Carmilla"), uma homenagem em rock gótico à literatura de terror do século XIX. Está aqui quase tudo: Carmilla, Frankenstein, a Mulher de Branco, Jekyll And Hyde, Varney, Dorian Gray (Drácula não precisa de estar porque The Red Moon Macabre já lhe dedicou vários temas).

* It's very difficult to choose releases from The Red Moon Macabre because the project has been so prolific that I've lost count around the 20 albums in 3 years (but meanwhile it became a lot more). In an attempt to be fair, I chose one song from January and another from November. I'll take this opportunity to highlight the album "Shelley's Monster" (which includes "Carmilla"), a goth rock homage to 19th century horror literature. Almost everything is here: Carmilla, Frankenstein, the Woman in White, Jekyll and Hyde, Varney, Dorian Gray (no need to include Dracula since The Red Moon Macabre already have several songs about him).


Álbuns relevantes / Relevant albums

Black Rose Burning - The Fear Machine

Bootblacks - Paradise 

Corpus Delicti - Liminal 

Merciful Nuns - FINISTERE

Peter Murphy - Silver Shade

Pink Turns Blue - Black Swan

Red Lorry Yellow Lorry - Strange Kind Of Paradise

Rosetta Stone - Dose Makes The Poison

Talk To Her - Pleasure Loss Desire

The Chameleons - Arctic Moon

The Red Moon Macabre - Shelley's Monster

ULTRA SUNN - The Beast In You

Valisia Odell - Shadow of a Dream


Descoberta de 2025 / Discovery of 2025

Lung Overcoat *

* Lung Overcoat foi uma banda efémera que deixou apenas meia dúzia de canções arrepiantemente boas que só/finalmente descobri em 2025.

* Lung Overcoat was an ephemeral band that only released half a dozen chillingly good songs that I only/finally discovered in 2025.


domingo, 30 de novembro de 2025

Goth Club Classics

Inspired by DJ Dead Parrot's stream Goth Club Classics, here's my list of club hits circa the early 2000s. I'm missing those that never made it to my music files, but please refresh my memory.
This is my experience, what's yours? 

Alien Sex Fiend - Dead And Buried
Anathema - Fragile Dreams
Bauhaus - Kick In The Eye
Clan of Xymox - Louise 
Corpus Delicti - Saraband
Covenant - Dead Stars
Depeche Mode - Personal Jesus
Die Form - Rain Of Blood
Echo & The Bunnymen - Lips Like Sugar
Fields Of The Nephilim - Moonchild
Front 242 - Headhunter
Heroes Del Silencio - Entre Dos Tierras
Joy Division - Love Will Tear Us Apart
Marilyn Manson - The Beautiful People
Moonspell - Vampiria
New Order - True Faith
Nick Cave & The Bad Seeds - Deanna
Nine Inch Nails - The Perfect Drug
Nitzer Ebb - Join In The Chant
Paradise Lost - Say Just Words
Peter Murphy - Indigo Eyes
Rammstein - Du Hast
Red Lorry Yellow Lorry - Hollow Eyes
Rosetta Stone - Adrenaline
Siouxsie and the Banshees - This Wheel's On Fire
Soft Cell - Sex Dwarf
Suspiria - Glitter
The Chameleons - In Shreds
The Creatures - Exterminating Angel
The Cult - She Sells Sanctuary
The Cure - Burn
The Merry Thoughts - Pale Empress
The Mission - Severina
The Prodigy - Firestarter
The Sisters of Mercy - Lucretia My Reflection
Tiamat - Brighter Than The Sun
Type O Negative - Black No. 1 
Virgin Prunes - Baby Turns Blue
VNV Nation - Darkangel 
Wolfsheim - Once In a Lifetime

 

quarta-feira, 20 de abril de 2022

Gothzilla - um caso sério

[Originalmente publicado em Gotika

Admito que da primeira vez que ouvi o nome Gothzilla pensei que era uma banda de paródia ou que estavam a brincar comigo. Nada mais injusto. É certo que o nome é cómico, e a banda ficaria mais bem servida com outra versão de The Blackest Darkness of the Bottomless Pit of Doom, mas esta malta tem sentido de humor. Gothzilla vende o que apregoa: gótico puro e duro. “Today Is A Good Day To Die” (álbum de estreia “Catharsis”) foi amor à primeira audição. Do mesmo álbum, “Tightwire” e “Temple Of Sound” bastaram-me uma audição ou duas. Desconhecia completamente esta banda escocesa, que apesar do nome leva o rock gótico muito a sério, e procurei a discografia toda. Do segundo álbum, “The Dark Is Rising”, destaco o tema “Edge Of Forever”, e do terceiro, “Auras”, saliento “The Unknown”. Mas o meu tema preferido é sem dúvida “Ilaria”, em que a voz feminina vem dar aquele tom etéreo que tanto mais me agrada quão mais pesada é a composição.
Se tenho algo a apontar à banda é que por vezes resvala um pouco demais (para o meu gosto) para um registo mais metálico a lembrar Paradise Lost. Nunca é uma crítica comparar alguém a Paradise Lost, mas por mim não resvalava nesse sentido.
Com uma obra já significativa, estes escoceses provam que é possível inovar no rock gótico com boas letras e melodias cativantes, originais, sem copiar ninguém.
Gothzilla foi uma banda que me apanhou de surpresa e que merece ser descoberta com urgência.

Para ouvir (e comprar) aqui:
gothzilla.bandcamp.com


quarta-feira, 23 de fevereiro de 2022

Música gótica − origens − presente − futuro

(Originalmente publicado em Gotika)


Ao longo do tempo, durante a existência do blog Gotika, muita gente me perguntou o que é a música gótica. Também vou dar um link para esclarecer todas as dúvidas, mas antes vamos falar dos precursores da música a que, no período pós-punk, se começou a chamar gótica.
Vem de longe, de muito mais longe do que se pode pensar. Durante o período pandémico e o lockdown, o DJ Cyberpagan foi um dos DJs que começaram a emitir streams no Twitch (para nosso deleite). Este stream que vos trago aqui é uma obra de mestre, reunindo todas ou quase todas as influências que, em conjunto, se cristalizaram mais tarde em algo diferente do punk, entre a vanguarda de uns Bauhaus e a melancolia de uns Joy Division, só para citar alguns dos pioneiros. Esta é uma playlist para conhecedores e amantes do gótico que me surpreendeu por ser tão completa (não me consigo lembrar de uma influência que não esteja aqui representada). Para ouvir, descobrir e reflectir, AQUI.

Mas a partir de agora, quando alguém me perguntar o que é “música gótica”, vou responder com este outro stream da DJ Mortasha Kinski, gótico tradicional que cobre muitos dos grandes em duas horas (fantástico!), e não me perguntem mais vez nenhuma.
AQUI

Mas o gótico não acabou nos anos 80, longe disso. A pandemia teve o efeito positivo de impulsionar uma comunidade internacional no Twitch. Todos em casa e todos juntos, unidos pelo prazer da nossa música.
Passados alguns meses a explorar e descobrir, decidi partilhar os meus streams góticos preferidos, onde se ouve o que de melhor se faz na cena actual (gótica e afins, porque sempre foram os góticos a decidir qual era a música que queriam ouvir, e não o contrário, e quem não compreende isto não compreende nada do movimento). O gótico está muito vivo e em permanente evolução.
Aqui estão os meus preferidos. Espero ver-vos por lá.
Em primeiro lugar quero destacar o único DJ português que emite gótico no Twitch (que eu saiba, e geralmente acompanhado pelo DJ Exploding Boy):


Undead Decadance Party
www.twitch.tv/undead_decadance_party
Descrição: post punk, alternative 80s, goth, darkwave, electro
Festa ocasional. Bandas portuguesas actuais.

DJ Exploding Boy e Dj Yggdrasil

Feita a distinção do DJ da casa, seguem-se, em ordem alfabética:

DJ Acidbitter
www.twitch.tv/acidbitter
Descrição: dark alternative music, goth, post-punk, darkwave, industrial, EBM, synthpop, coldwave, ethereal, shoegaze, dark folk, neoclassical, etc
Este é um stream virado para as novidades que privilegia o vídeo, embora passe clássicos com frequência. O ambiente é bem-humorado e descontraído.




DJ Cyberpagan
www.twitch.tv/dj_cyberpagan
Descrição: goth, death rock, post punk, new & (c)old wave, indie
Assistir a um stream do DJ Cyberpagan pode ter a solenidade de uma aula universitária. Pode ser bastante obscuro, podemos não conhecer a maioria das bandas, mas aprendemos sempre alguma coisa. Até hoje, ainda não aconteceu eu não conhecer uma única banda tocada, mas esteve perto. Aconselho a melómanos que querem descobrir música recente e que não têm medo dos “lados B”. Não aconselho a iniciantes.

 

DJ Cyberpagan e a sua gata Pavučina


Dead Souls Gothic Lounge
www.twitch.tv/dead_souls_gothic_lounge
Descrição: goth rock, darkwave, post punk, industrial, coldwave, minimal synth, death rock, ethereal, neoclassical, shoegaze, witch house, dark 80s and 90s
Possivelmente o stream onde se pode ouvir o gótico / alternativo / etéreo / neoclássico mais obscuro que existe, com tendência igual para as novidades. Não é o único stream que passa post punk sul-americano (incluindo brasileiro) mas é o único onde se passa Mão Morta! Clássicos são raros, e grandes hits muito menos. Recomendo a quem já tenha um bom conhecimento do tipo de música. Não recomendo a iniciantes.


 
Dead Souls Gothic Lounge: DJ Naggaroth e o seu gato Phantom

 

DJ Miz Margo
www.twitch.tv/djmizmargo
Descrição: proto-goth, goth, death rock, dark punk, classic industrial, grave wave, batcave, gothabilly, etc
Miz Margo é uma experiência 100% gótica, quer passe as bandas mais recentes ou os clássicos. Quem gosta de Sisters of Mercy, Fields of the Nephilim, Mission, Christian Death, Cure, Bauhaus, Joy Division, Dead Can Dance, Siouxsie, e os outros todos, é aqui que deve ir primeiro e não será desapontado. Mas conte-se com bandas menos conhecidas e muita música nova.

DJ Miz Margo e o seu gato Squeeks


DJ Mortasha Kinski
www.twitch.tv/mortasha_kinski
Descrição: early 80s, new romantic, post-punk, goth, old industrial and dark wave
Mortasha Kinski passa vários géneros, mas escusado será dizer que prefiro os streams sobretudo inclinados para o gótico e anos 80. Para comprovar, nada como ouvir o link acima.

DJ Mortasha Kinski e o seu morcego (de peluche) Batty

 

The New Order Melb
www.twitch.tv/thenewordermelb
Descrição: gothic, post punk, new wave, industrial, death rock, alternative, dark electronic, the rest
Como o nome indica, este é um stream australiano onde o mundo vai acabar a noite, sábado de manhã, devido à diferença horária. Além do gótico puro e duro e das bandas mais recentes, The New Order Melb faz muitos especiais e tem sempre muitas surpresas. É essencialmente um stream divertido, descontraído e descarado, para os DJs e para nós. A melhor maneira de acabar a sexta-feira ou de começar o fim de semana.

The New Order Melb: DJ Wolf, DJ Anarki e DJ Eris


Xiled Radio
www.twitch.tv/xiledradio
Descrição: industrial, techno, powernoise, goth, shoegaze, synthpop, post-punk, ethereal, IDM, dark ambient, pagan folk, etc
Este é um stream virado sobretudo para novidades onde eu vou para ser desafiada, para ser exposta a música de que geralmente não gosto particularmente tirando alguns temas aqui e ali. O objectivo, como melómana que sou, é conhecer música nova e fora da minha “zona de conforto”, mas bastante dentro do espectro da música alternativa. O stream é muito relaxante e descontraído. 

 
 

Xiled Radio e o seu gato Ben


Estes são apenas os meus streams preferidos. Há muitos mais que eu sigo ocasionalmente e mesmo regularmente, e uma infinidade deles dentro do gótico e do alternativo em geral. Os streams de música foram o melhor que aconteceu durante a pandemia e são o sítio ideal onde descobrir música nova para quem não se contenta com os clássicos.


sábado, 29 de maio de 2021

Pórtico ultrapassa as 100 mil visitas


Demorou, mas aqui estamos. O Pórtico ultrapassou as 100 mil visitas.
De início atribulado, criado quando não havia uma plataforma única onde divulgar de modo centralizado os eventos góticos nacionais, o Pórtico pode ter perdido relevância com a hegemonia do Facebook.
Para quem prefere visitar uma página actualizada e centralizada, o Pórtico vai cá estar enquanto esta vossa escriba precisar de um passatempo.
A todos vós que visitam, muito obrigada!

quinta-feira, 27 de maio de 2021

:: Review :: WORLD GOTH DAY 2021 :: Review ::


Sabiam que 22 de Maio é o Dia Internacional do Gótico? Eu também não. (Para dizer a verdade, só começou em 2009.) Foi preciso a pandemia e assistir a streamings estrangeiros para saber que o World Goth Day é cada vez mais celebrado pelo mundo fora. Mas este ano, 2021, foi definitivamente especial. (Podem tirar-nos os bares, mas não nos tiram o gótico.) Emissão em streaming, 24 horas ininterruptas, com DJ sets de todo o mundo.
Sendo que é a primeira vez que faço uma crítica / reportagem de um evento de streaming, vou-me guiar pelas regras da crítica de concertos (só que cada um em sua casa).
Só soube do evento no próprio dia, e só por acaso, uma vez que recentemente tenho andado mais ligada aos eventos de streaming como há muito tempo não andava (por exemplo, deixei de ouvir rádio/podcasts online há anos), desde que tenha tempo. Consegui acompanhar o evento das 18h às 2 e tal da manhã, e só posso dizer que foi um espectáculo. DJs do mundo inteiro, vários estilos de música (dentro do gótico / alternativo, bem entendido), góticos de todo o planeta a assistir aos eventos e a participar no chat, de início com alguma timidez, depois mais abertamente.
Algo que sempre me impressionou desde o meu contacto inicial com a cena é que não importa onde estejamos, de que país e cultura sejamos originários, da Europa aos Estados Unidos, da Austrália à América do Sul, quando nos encontramos sentimos que já nos conhecemos todos uns aos outros desde sempre. Isto nunca senti em mais lado nenhum nem com mais ninguém. Quando comunicamos uns com uns outros, apesar de desconhecidos, sabemos imediatamente do que o outro está a falar. É extraordinário.
Não se pense que os góticos são uns sisudos, porque houve momentos de humor. A certa altura um DJ de New York (DJ Sean Templar) decidiu discursar, agradecer a presença de tanta gente online, desejando que nos divertíssemos e mostrássemos, com o nosso apoio, as nossas “true colours”:
“OUR COLOURS ARE BLACK” Respondeu alguém no chat.
Eu ri-me porque estava a pensar o mesmo. Cores, quais cores? Maior verdade nunca foi dita.
Quem perdeu este evento não fique triste, todos os DJ sets estão no site
www.death-rock.de
para serem ouvidos e apreciados em
www.death-rock.de/2021/05/playlist-world-goth-day-stream-2021-22-05-2021
e noutras plataformas onde os DJs alojaram as suas prestações (é só procurar porque estão disponíveis).
Adoro estes streamings, quer os nacionais como os internacionais, e espero que não acabem, com ou sem pandemia. Dão muito jeito às pessoas que não podem sair por motivos profissionais ou familiares, ou que não podem viajar. É uma janela para o que se faz lá fora e, acima de tudo, uma maneira de conhecer música nova ao mesmo tempo que se passa um bom bocado.
Da nossa parte, fomos representados pelo DJ Yggdrasil, já um veterano dos streamings internacionais. Espero não perder para o ano e prometo anunciar com antecedência. É preciso é que se faça.

quinta-feira, 7 de janeiro de 2021

The Garden of Delight / Merciful Nuns: jardim de delícias

Merciful Nuns

Este é um post há muito devido. Há demasiado tempo que The Garden of Delight e a sua posterior encarnação Merciful Nuns me têm feito as delícias sem que deles tenha falado. Mas não vou contornar a batata quente. O profícuo trabalho de ambos os projectos é "derivativo", como se diz agora quando queremos ser simpáticos. Quem não quer ser simpático poderá chamar-lhe "imitação" de Fields of the Nephilim e Sisters of Mercy, mas vamos lá mais devagarinho. Há imitação e há homenagem.
Antes de prosseguir vou relatar uma conversa que tive sobre o assunto, aqui há uns anos, com um daqueles ultra fãs de Sisters of Mercy. Conheci-o porque, eu também, era uma ultra fã de Sisters of Mercy. (Entretanto deixei de ser, mas não vem agora ao caso.) Penso que a conversa até não era sobre os Garden of Delight, salvo erro era sobre os Merry Thoughts, mas a questão é exactamente a mesma. Perguntava-lhe:
"Então, o que pensas destas bandas em que o vocalista faz uma voz tão igual ao Andrew Eldritch que quase não se percebe que não é o próprio?"
Ele: "Imitações. Rip-offs. Não interessam."
Eu: "Não sei... Têm boas canções. O estilo pode não ser original mas as canções não são cópias. E pelo menos assumem que são góticos e não fingem que não são. Porque é que não hei-de gostar de bandas que fazem a música que eu gosto de ouvir?"
Ele: "Estilo gótico!... Mas era só isso, no início, o estilo gótico?"
Aqui fiquei sem palavras porque ele já se referia a toda uma envolvente pós-punk que disse muito às pessoas que a viveram. Já não estávamos a falar de música, estávamos a falar de atitudes, rebeldias, tomadas de consciência, posições políticas e filosóficas. Os anos pós-punk, a adolescência. Não quis entrar nesse debate.

Não sou dada a nostalgias, percebo agora que sou mais velha, e nunca consegui ficar agarrada a meia dúzia de bandas preferidas dos anos 80. Nem me bastava! Musicalmente, sou um vampiro. Preciso sempre de mais, e mais, e mais. E devo dizer, depois de mais de metade da minha vida a ouvir música como um vampiro insaciável, que original nem sempre é bom, e certamente não é tudo. Mais vale não original e bom do que original e mau. Nunca assinei um pacto a prometer que sempre ouviria música original, da mesma forma que também não assinei um pacto com as bandas antigas a prometer que não ouviria bandas novas (originais ou não). Tudo isto para dizer que na minha opinião o original, apesar de sempre promissor e bem vindo, está sobrestimado.
Já não tenho preconceitos com bandas derivativas. Sei do que gosto musicalmente, e não vejo nenhuma razão para não ouvir o que gosto. Também não vejo nenhuma razão para que as bandas não dêem aos ouvintes exactamente a experiência que estes lhes pedem, a musical e a outra. A experiência gótica. E nisso, tanto os Garden of Delight como os Merciful Nuns, ambos projectos alemães da autoria do mesmo mentor Artaud Seth, não decepcionam. Isto é rock gótico, isto continua o estilo que Fields of the Nephilim e Sisters of Mercy iniciaram, isto é o que eu quero ouvir. O conteúdo lírico, inspirado no oculto e no ritualismo, invocando anjos, deuses e demónios, inspirado em Crowley e Lovecraft, e ao mesmo tempo espiritualista, entre a contemplação e a sublimação da morte, também me delicia. (Ouça-se a solução sobrenatural de "In Between Worlds", Merciful Nuns, "she found a way to wander forever in between worlds" e compare-se com "Emma", The Sisters of Mercy*, "to find her lying still and cold and upon my bed", em que a tragédia se esgota na crueza da realidade.) 
Os amantes do sobrenatural vão gostar muito destes prazeres proibidos, tabus, que apenas apelam à alma gótica.

Garden of Delight "The Darkest Hour" 2007

Fica o alerta, quem viu relata que os Merciful Nuns são uma força da natureza ao vivo. Acredito plenamente. Assim me seja dada a oportunidade de testemunhar.



*Pequena adenda: Depois de escrever este post ocorreu-me acrescentar que "Emma" não é um original dos Sisters of Mercy, mas sim dos Hot Chocolate, uma banda soul britânica. Mesmo assim, achei interessante fazer a comparação porque a escolha de uma versão também fala pelo seu intérprete.
(A reboque desta curiosidade, ouvi pela primeira vez o original dos Hot Chocolate, um êxito de 1974. Vale a pena ver o vídeo.)




quinta-feira, 30 de janeiro de 2020

Club Noir e Metropolis encerrados ao mesmo tempo

Más notícias para a cena gótica e alternativa de Lisboa. Depois do encerramento do Club Noir na rua da Madalena, agora é o Metropolis Club a fechar as portas no Centro Comercial Imaviz. A festa de despedida do Metropolis é já no próximo sábado 1 de Fevereiro. A ultima noite no Club Noir da rua da Madalena foi a passagem de ano. Ambos os bares tiveram de fechar porque os espaços foram comprados. Para a “construção de apartamentos de luxo”, no caso do Club Noir, para uma “multinacional hoteleira” no caso do Metropolis, como se pode ler nas respectivas páginas de Facebook. O Club Noir promete reabrir em breve em espaço já encontrado em Alvalade. O Pórtico espera novidades.
No caso do Metropolis, a notícia foi em cima da hora mas não é uma surpresa. O bar já esteve fechado há dois anos, de Outubro a Novembro de 2017, por motivos relacionados com o próprio espaço do centro comercial. O Imaviz, nas Picoas, foi na sua época um centro comercial chique e caro (onde António Variações trabalhou num cabeleireiro unissexo Isabel Queiroz do Vale) mas o estado decrépito e cada vez mais lojas fechadas saltavam à vista de quem atravessava regularmente aquele espaço de “centro comercial fantasma” durante estes últimos doze anos de existência do Metropolis.
O Pórtico vai ficar atento e deseja boa sorte às gerências do Club Noir e do Metropolis na busca de espaços alternativos (em duplo sentido).

sexta-feira, 3 de novembro de 2017

Metropolis reabre no mesmo espaço

O bar Metropolis vai reabrir no mesmo espaço, Centro Comercial Imaviz, nas Picoas, a 17 de Novembro. Segundo post do Facebook, a reabertura deve-se aos muitos apelos dos clientes desde que encerrou a 30 de Setembro. No entanto, permanece em aberto a mudança de espaço, que pode ser "mais morosa que o desejado".

domingo, 11 de novembro de 2012

Rosa Crux ao vivo na Caixa Económica Operária 3.11.2012 [actualizado: foto]

[Foto de Nuno Consciência, gentilmente cedida via Abismo Humano.]


Estive quase para não ir ver. Muitos factores. Cansaço sobretudo. Antes de anunciado o concerto o nome da banda era-me apenas familiar. Não conhecia a música. Nisto entram ainda mais factores que não vou enumerar, mas saliento acima de tudo a falta de tempo para procurar música nova que me interesse (era diferente nos anos da adolescência, e este tema dava pano para mangas, mas não me vou alongar).
Os concertos têm tido, pelo menos para mim, o efeito de motivar a pesquisa. Foi o que fiz e descobri os Rosa Crux. Quanto mais os ouvia e via (existem online suficientes vídeos de performance ao vivo) mais me convencia de que devia ir.
Que o devia a mim própria.
Que o devia aos Rosa Crux.
Que uma banda como os Rosa Crux merece um obrigado presencial. E o apoio necessário para continuar.
Foi tudo cinco estrelas. Só faltou o público. Várias razões podem explicar que a Caixa Económica Operária estivesse a um terço da sua capacidade. Festas de Halloween, primeiro concerto de Dead Can Dance em Portugal a 24 de Outubro na Casa da Música, fim-de-semana propício a ponte que pode ter levado muitos (dos que têm possibilidade de ir) para fora de Lisboa, e, last but not least, a fatídica falta de dinheiro (dos que não têm possibilidade, ponto final).
Os Rosa Crux não se incomodaram com a escassez de público. Um público, porém, talvez demasiado tímido, o que motivou a que o vocalista pedisse às pessoas para se aproximarem do palco. As pessoas aproximaram-se. Timidez talvez de parte a parte uma vez que exceptuando o "bon soir", o pedido que não se fumasse para não prejudicar a voz, e o anúncio da música final, a que se seguiu o encore com mais dois ou três temas instrumentais, Olivier Tarabo sorriu muitas vezes mas não falou. Se problemas havia, com a voz, esta foi bem poupada porque não se notou qualquer falha.
Não tenho uma lista de temas (aliás, temeria errar se me aventurasse por aí) mas ouviram-se certamente os mais conhecidos, e até os outros, de tão bons, não pareciam desconhecidos. Não faltou a performance "La danse de la terre". Melhor do que descrever o que existe amplamente em imagens na internet, convido os leitores que não conhecem e/ou nunca viram ao vivo a ver por si próprios. Ao vivo não faz a poeirada que parece. Diria mesmo mais, eu que não sou nada adepta de performances teatrais deste género, logo completamente insuspeita de favorecimento, achei que a performance se passou com uma naturalidade que não colocou pessoas menos "teatralmente interactivas" (como eu) pouco à vontade. Confesso que tinha receio que acontecesse qualquer cena propícia a fobia social como o público ser convidado a participar. [Alguns artistas não compreendem que algum público não quer participar. Felizmente, não foi o caso.]
O facto de existirem na internet tantos exemplos do que a audiência pode actualmente esperar dos Rosa Crux (inclusive da participação no Entremuralhas 2011) suscita-me a inutilidade de entrar em mais pormenores. Tudo o que virem em vídeo é melhor ao vivo. Está tudo dito. Foi um bom concerto. Um grande concerto. Um dos melhores que já vi. Faltou o público. A banda não se importou. Merecia mais.

Rock gótico
Muitas vezes me perguntam o que é o gótico. Não vou responder a isso agora.
Muitas vezes me perguntam o que é a música gótica. A resposta é tão complexa que costumo responder que a música gótica é a música que os góticos ouvem. Tecnicamente não é bem assim, mas serve. Hoje, ao falar dos Rosa Crux, posso afirmar: isto é música gótica. Mais especificamente, rock gótico. Guitarra, contrabaixo, piano, sinos, coros, temas épicos, ritualísticos, melancólicos, sempre cobertos de obscuridade (no caso dos Rosa Crux tamanha obscuridade que as próprias letras são em latim), e acompanhamento electrónico suficiente. Pode não parecer importante, para ouvidos mais jovens, mas o rock gótico dos anos 80 (isto é, quando o rock gótico hoje chamado "clássico" foi inventado) era descrito como "voz grave, guitarra, baixo, caixa de ritmos". Na altura, o uso da caixa de ritmos a substituir a bateria era algo de inovador e ousado! Lembro-me de uma discussão sobre se os Cult eram ou não góticos porque usavam bateria em vez de caixa de ritmos. Os Fields of the Nephilim idem. É difícil explicar isto a ouvintes mais recentes mas nos anos 80 os géneros musicais também eram catalogados consoante os instrumentos que usavam. Era tudo muito compartimentado. As bandas de rock não usavam sintetizadores, as bandas de rap não usavam riffs de heavy metal, as bandas de heavy metal não usavam vocalizações pop. Era a Lei. Tudo o que saía destas "caixas" era um bicho de sete cabeças. Eram tempos simples, em que os Depeche Mode faziam música electrónica, ponto final, Madonna fazia música pop, ponto final, os U2 faziam rock, ponto final. Imaginem a nossa surpresa quando aparecem, nos anos 90, umas bandas esquisitas como os Rammstein, a usar sintetizadores e guitarras! Seria electrónico, seria rock, seria industrial?
Tudo isto para explicar porque digo que os Rosa Crux, embora o primeiro álbum date de 1995, seguem a base clássica "voz grave, guitarra, baixo, bateria e/ou electrónico", logo, o rock gótico como o conhecíamos. Sem preconceitos ou receios. É curioso notar que os Rosa Crux existem desde 1984, mas talvez o público não estivesse pronto para os Rosa Crux. [Outras bandas, como os Alien Sex Fiend, sofreram devido ao mesmo génio.] Eu própria me imaginaria, na altura, a torcer o nariz a toda a imagética de sinos, velas, caveiras, rituais, e a remetê-los para a secção "demasiado religioso para o meu gosto".
Os gostos, na altura, e maioritariamente, eram outros, não preciso de os enumerar agora, mas talvez seja mais do que tempo de reconhecer aos Rosa Crux o estatuto que merecem.
Se me pedissem um exemplo de rock gótico, presente, alive and kicking, dificilmente encontraria melhor.

quinta-feira, 24 de março de 2011

Club Noir



Antes de mais, o meu contrito mea culpa por não ter escrito sobre o Club Noir mais cedo quando já o podia ter feito. (A preguiça é um pecado tão feio...)
Depois de tantos anos sem alternativas, em Lisboa, a coisa começa a compor-se. Foi com muito agrado que conheci o Club Noir, inaugurado na rua da Madalena (baixa) em Fevereiro. Aqui está um espaço com tudo para agradar e todas as potencialidades que se possam imaginar.
À entrada, junto ao bar, existe uma sala onde se facto se pode conversar em grupo. A música é audível e a pista de dança é visível mas não atrapalha o convívio.
A mencionada pista de dança, por sua vez, ocupa exactamente o espaço suficiente para ser ao mesmo tempo intimista e convidativa (em suma, uma pista de dança "a sério", ao contrário de pista de dança improvisada como acontece em tantos bares). De facto, se estivéssemos nos anos 80 chamaria ao espaço nada mais nada menos do que bar/discoteca, porque é precisamente o que o espaço oferece. Mais nas "profundezas" há uma terceira sala, a que chamo a sala dos sofás, que oferece oportunidade para conversas mais... "aconchegadas". Aqui a minha opinião não é muito favorável (mas sou suspeita à partida porque detesto sofás): a música na "sala dos sofás" é tão elevada como na pista de dança e os sofás, se houvesse mais luz, dariam ao espaço um aspecto de "sala de espera". Talvez uma sala a melhorar, na minha opinião.
Tirando os sofás (que segundo me disseram já lá estavam quando o bar foi adquirido) nada a apontar à decoração e à iluminação. Podia ter um toque mais "pessoal" mas acredito que com o tempo, e os cartazes, e as recordações, chega-se lá.
Quanto à música, pelos dois eventos a que assisti fiquei com a impressão que depende do DJ ou da temática da noite, o que também é bom sinal. Respeitam-se os gostos das pessoas e não se engana ninguém caindo nos mesmos êxitos do costume, batidos e "rebatidos" por todo o lado. (Uma das coisas de que gostava na antiga Juke Box -- a do Bairro Alto -- era entrar lá e não conhecer nada do que estava a passar. A mim nunca ouvirão criticar música obscura.)
Por último, mas não menos importante, gostava de realçar a localização. O facto de se situar na baixa, numa rua afastada do mainstream dos bares (Cais do Sodré, Bairro Alto, etecetras e tais que não vou referir) é um ponto muito positivo. Quem frequentava a Juke Box, à tarde e a noite, na rua da Fé, sabe bem do que falo. O Club Noir, tal como a Juke da r. da Fé, tem a vantagem de ser apenas frequentado por gente que sabe para onde vai e para o que vai. Gente da cena, gente que não cai lá de pára-quedas. Talvez, com o tempo, surja a mística que o ambiente pede e encoraja. Logo, toca ir ao Club Noir e a espalhar a palavra pelos amigos. Das vezes que fui não me pareceu que estivesse suficientemente "povoado", certamente por ser um sítio ainda novo. Por isso insisto, toca a ir! Toca a recriar a mística! E já agora, toca a recriar a "dança em círculo". Isso, infelizmente, tem-se perdido, e cá por mim tenho saudades da cumplicidade que se criava. (Sabem do que falo, não sabem?...)
Um ponto negativo apenas: Já estou mal habituada desde que os bares começaram a fechar mais tarde em Lisboa. O Club Noir fecha mesmo às 4 da manhã. Enfim, tudo o que é bom parece que acaba sempre cedo demais, não é?

sexta-feira, 7 de maio de 2010

"O Castelo de Otranto", por Horace Walpole

Não sei se esta foi a primeira vez que li "O Castelo de Otranto". Lembro-me de ter estado várias vezes na Feira do Livro, com este nas mãos, folheando e questionando se deveria ou não comprar. Se comprei, e se li, não me lembrava absolutamente nada da história. Algo me diz que não cheguei a ler, por duas razões. A primeira, porque me parecia um conto demasiado pequeno em que gastar o meu dinheiro (sempre preferi histórias longas). A segunda, porque folheando não me pareceu suficientemente sobrenatural numa altura em que eu procurava sobretudo os clássicos mais marcantes.
Isto, de procurar o mais gritante, em si também é curioso, porque a um leitor é necessário conhecer os extremos antes de conseguir apreciar a subtileza do intermédio.
Só agora, finalmente, me debrucei sobre "O Castelo de Otranto", considerada a primeira novela gótica, e a li com outros olhos, e uma uma outra percepção tão vasta e profunda que milhentas ideias me surgiram de seguida. Não sei se conseguirei expor sequer algumas. Foi uma espécie de turbilhão que ainda tem de ser melhor estudado. (Quando digo "estudado", refiro-me à análise mais cuidada desta minha tese embrionária.)
"O Castelo de Otranto" conta uma história interessante sobre um tirano que tudo faz para manter a descendência masculina do seu principado de modo a que este não se extinga por falta de legítimos herdeiros. E é isto, não há nada mais. A maldição, os "efeitos sobrenaturais", são secundários. Por alguma razão lhes chamo "efeitos", como se aplica o termo nos filmes. O que é realmente interessante na história é a forma como Manfred tenta manipular todos os que entram em contacto com ele, e a profundidade psicológica desta personagem escrita no século XVIII (1764). Por isto, sim, fiquei maravilhada.
E decidi procurar mais sobre a "novela gótica". Diz a wikipedia: a novela gótica é um género literário que combina elementos de horror e romance.
Foi aqui que a minha mente se pôs a trabalhar a 1000 à hora. Não a respeito da novela gótica clássica, mas de tudo aquilo que actualmente caracteriza o movimento gótico como o conhecemos. Haverá, actualmente, uma literatura gótica, isto é, moderna? E terá já alguma coisa a ver com o clássico?
Afinal, quanta música gótica trata de fantasmas? Vejam-se os clássicos. As referências são muitas, mas os fantasmas já não estão no exterior. Os fantasmas, actualmente, são projecções dos medos inconscientes. (Freud fazia mesmo muita falta à literatura). E se é a profundidade psicológica de uma personagem como Manfred que me toca, não o é menos o drama existencial dos vampiros de Anne Rice, que já não são personagens de terror, são seres humanos que por acaso são vampiros e que por essa razão conseguem analisar a condição humana por uma lente privilegiada. Na minha opinião, há muito que a literatura que é lida pelo movimento gótico se afastou do "terror" clássico, mais ou menos da mesma maneira que alguém disse dos Joy Division que os seus temas eram góticos, e não consta que falassem de fantasmas. Pelo menos dos fantasmas de fora. E há muito tempo que o verdadeiro terror vem das profundidades da alma, sem sequer a necessidade de o projectar num monstro algures na noite lá fora. A banda que melhor conseguiu fazer esta ligação, escrevendo canções de amor que algumas pessoas interpretaram como a possessão por um íncubo, foram os Fields of the Nephilim. Quando alguém comentou isto, mais ou menos na brincadeira, eu lembro-me de ter perguntado: não é isso que é o sexo, qualquer e todo o sexo? Qual é a diferença? E se é assustador? E desde quando sentir que a felicidade depende de um ser que nos é alheio e incontrolável não é assustador? Para quê mais monstros, se já há tantos onde eles realmente existem e sempre existiram?
Eram muito ingénuos, estes primeiros escritores góticos, mas enfim... Freud fazia falta.



Original in Gotika