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domingo, 22 de junho de 2025

The Chameleons + Decline And Fall - RCA, Lisboa,18.Jun.2025 - Uma noite muito calorosa / A night of warmth

Decline And Fall
Confesso que não consegui preparar este concerto. Geralmente tento procurar a música das bandas que não conheço, mas meteu-se uma coisa e outra coisa, e esqueci-me. Ainda por cima sou daquelas pessoas que não conseguem avaliar música nova à primeira audição, que foi efectivamente o que aconteceu no concerto. O que consigo perceber imediatamente é se o tipo de som me interessa, e de facto interessou.
Por isso fiz batota. Cheguei a casa e fui ouvir o Bandcamp desta banda de Lisboa. Os Decline And Fall fazem um post-punk/darkwave contido, sombrio e melancólico, por vezes algo ambiental, não exactamente dirigido às pistas de dança. A sonoridade merece ser descoberta aqui:
https://declineandfallmusic.bandcamp.com

Decline And Fall, RCA, Lisboa, 18.Jun.2025 - Foto de DJ Asura Sunil / Photo by DJ Asura Sunil


The Chameleons
Os Chameleons arrancaram às 21h30 com o poderoso "Mad Jack". Estava uma noite quente, daquele calor húmido e abafado que se pega à pele. O concerto estava esgotado e o RCA estava cheio. Mark Burgess apresentou-se só com um colete, e pela segunda canção já todos em palco transpiravam, e nós também. A esta hora ainda deviam estar mais de 20 graus na rua depois de um dia que chegou quase aos 40. Mais tarde, de madrugada, haveria chuva e trovoada. Apesar do ambiente tropical, ninguém esmoreceu, na medida do possível.
O público sabia ao que vinha e foi sempre entusiástico. Os Chameleons não desapontaram. Mark Burgess está em forma e a voz continua excelente. Tivemos hits atrás de hits como "The Fan And The Bellows", "Up The Down Escalator", "Soul In Isolation", "Swamp Thing" (a canção que teve mais coro do público), "In Shreds", "Monkeyland", "Second Skin", "Don't Fall", todos clássicos tocados com arranjos diferentes, como se espera ao vivo. A canção mais recente, "Saviours Are A Dangerous Thing", do novo álbum a ser lançado em Setembro, chegou no encore.
Ainda bem que não preparei este concerto, por exemplo, assistindo a YouTubes de concertos recentes. Durante "Soul In Isolation", Mark Burgess incluiu letras de outras canções, numa espécie de medley, como "For What It's Worth" de Buffalo Springfield, "Eleanor Rigby" dos Beatles e "There Is a Light That Never Goes Out" dos Smiths. Foi uma surpresa, como eu gosto, sem spoilers!
Mark Burgress esteve igual a si próprio, carismático, simpático, efusivo e brincalhão, sempre a manifestar apreço pelo público, mas o fim eu não esperava. Ser simpático e agradecer é uma coisa, vir para o meio do maralhal, com aquele calor, toda a gente a transpirar, cantar "Rebel Rebel" de David Bowie como recheio de "Don't Fall", é mesmo de punk à antiga. Ninguém pode ter saído do RCA desiludido.
Da primeira vez que vi os Chameleons, versão Chameleons Vox, no Santiago Alquimista em 2010, fui para lá "arrastada" por amigos sem saber que gostava tanto dos Chameleons como de facto gostava. Saí de lá uma fã. Desta vez já entrei fã e saí ainda mais fã. Quanto mais conheço, mais gosto. Tem sido uma relação saudável de apreço e confiança construída ao longo dos anos, ao contrário da minha relação tóxica com determinada banda que não vai ser mencionada.
Deixo apenas uma pergunta: temos mesmo a certeza de que os Chameleons não conseguiriam encher os Coliseus? Tanto o RCA como o Santiago Alquimista são salas para uma banda de menor dimensão, já para não contar com o Rock Rendez Vous em 1983 onde iam as bandas novas e desconhecidas. Mas actualmente os Chameleons são uma banda de culto. Não mereciam os Coliseus? Ou será que hoje em dia os preços dos bilhetes num Coliseu o tornam proibitivo? Sinceramente, não sei. Custa-me não ver os Chameleons no Coliseu.


A night of warmth

 
Decline And Fall
I confess that I wasn't able to prepare this concert. Usually I try to look up the bands I don't know, but there came one thing after another, and I forgot. On top of that, I'm the kind of person that is incapable of properly evaluating new music on a first listen, which was the case. What I can tell immediately is whether the music interests me, and in fact it did.
So I cheated. I came home and listened to their Bandcamp. Decline And Fall, a band from Lisbon, make a restrained, sombre and melancholy post-punk/darkwave, somewhat into ambient at times, not exactly directed at the dance floor. Their sound deserves to be discovered here:
https://declineandfallmusic.bandcamp.com


The Chameleons
The Chameleons started at 9.30pm with the powerful "Mad Jack". It was a hot night, with that kind of humid and stifled heat that sticks to one's skin. The concert was sold out and the RCA was full. Mark Burgess came on stage wearing only a vest, and by the time of the second song everyone on stage was sweating, and so were we. At this hour the temperature was still over 20ºC outside after reaching almost 40ºC during the day. Later, at dawn, there would be rain and thunder. Despite the tropical conditions, everyone stood firm, as much as possible.
The audience knew what they had come for and was enthusiastic from the first moment. The Chameleons did not disappoint. Mark Burgess is in shape and his voice remains excellent. We had hits after hits like "The Fan And The Bellows", "Up The Down Escalator", "Soul In Isolation", "Swamp Thing" (the moment the audience sang louder),"In Shreds", "Monkeyland", "Second Skin", "Don't Fall", all classics played with different arrangements, as expected. The most recent song, "Saviours Are A Dangerous Thing", from the new album due in September, was played during the encore.
I'm glad I did not prepare this concert, as in watching YouTubes of recent gigs. During "Soul In Isolation", Mark Burgess included lyrics from other songs, in a kind of medley, "For What It's Worth" by Buffalo Springfield, "Eleanor Rigby" by The Beatles and "There Is a Light That Never Goes Out" by The Smiths. It was a surprise, just the way I like it, no spoilers!
Mark Burgess was his usual self, charismatic, friendly, effusive and playful, always expressing his appreciation for the audience, but I had not foreseen the ending. Being nice and appreciative is one ting, stepping into the midst of the crowd, in that heat, everybody dripping, to sing David Bowie's "Rebel Rebel" in the middle of "Don't Fall", that's old school punk. No one could have felt disappointed as they left the RCA.
The first time I saw The Chameleons, as Chameleons Vox, at Santiago Alquimista in 2010, I was "dragged" there by friends, not knowing I liked The Chameleons as much as I actually did. I left there a fan. This time I arrived a fan and left a bigger fan. The more I know them the more I like them. It's been a healthy relationship of appreciation and trust built over the years, unlike my toxic relationship with a certain band that shall not be named.
I end with a question: are we really sure The Chameleons would not fill the Coliseus? Both RCA and Santiago Alquimista are smaller band venues, not counting Rock Rendez Vous in 1983, where new and unknown bands came to play. But nowadays The Chameleons are a cult band. Wouldn't they deserve the Coliseus? Or is it that nowadays the ticket prices in Coliseu make it undoable? Honestly, I don't know. I regret that The Chameleons don't play at the Coliseu.

terça-feira, 31 de outubro de 2023

The Sisters of Mercy – Lisboa ao Vivo – 26.Outubro.2023 - Lisboa – crítica ao concerto / The Sisters of Mercy – Lisboa ao Vivo – October 26th 2023 – Lisbon – a review

Os Sisters of Mercy são a minha banda preferida. Depois de muitos anos sem poder vê-los devido a motivos profissionais, aproveitei a oportunidade do passado dia 26 no Lisboa Ao Vivo.
Às 21h já a sala estava cheia. Encontrei-me com o DJ Asura Sunil, que conheci no Twitch (procurem-no!) e que se tornaria no meu parceiro de infortúnio dessa noite. Pontualmente, a banda de abertura Virgin Marys começou a tocar. Os Virgin Marys definem-se como uma amálgama de punk/grunge/rock, o que eu considero uma excelente definição. Infelizmente não é o meu tipo de som (nem a sonoridade que me levou ao concerto) e não consegui gostar.
Os Virgin Marys tocaram cerca de 45 minutos. Depois seguiu-se uma longa espera.
Entretanto, foi a minha primeira vez no Lisboa ao Vivo, que mudou de local para a zona de Cabo Ruivo. A sala é interessante para bandas de pequena dimensão, o que não era o caso dos Sisters of Mercy (que costumavam encher Coliseus) mas parece que agora é.
Não posso avaliar muito bem a acústica do espaço porque não conheço os Virgin Marys. O som pareceu-me um bocadinho alto demais (e eu estava bem atrás) mas pode ser da sonoridade da banda.
No que reparei é que não há lugares para sentar em lado nenhum. Ao fim de uma hora de pé a ciática já estava a matar-me e tive de me sentar num dos degraus das escadas para a mezzanine, o que não se deve fazer. Portanto, este vai ser o meu primeiro e último concerto no Lisboa ao Vivo e daqui para a frente vou-me restringir ao Coliseu.
Por volta das 22h30 os Sisters of Mercy ainda não tinham começado. A minha percepção extra-sensorial já me estava a sussurrar ao ouvido que não ia haver concerto, mas não quis acreditar nela. Dez minutos antes das 23h alguém da organização veio ao palco e anunciou que o concerto estava cancelado. Os presentes começaram a sair. Um deles expressou a impressão geral: “Que banhada!”
Mais tarde viemos a saber que Andrew Eldritch saiu do local de ambulância, mas que os Sisters of Mercy tocaram no Porto na noite seguinte.
Não estou zangada, simplesmente desapontada. Esta seria a minha última oportunidade de ver a minha banda preferida. Terei de me contentar com as memórias de tempos mais felizes.

***

The Sisters of Mercy are my favourite band. I haven’t been able to see them for many years due to professional reasons, so I took this opportunity to see them last October 26th at Lisboa ao Vivo.
By 9pm the venue was already full. I joined DJ Asura Sunil who I met on Twitch (look him up!) and who would become my partner of misfortune for the night. Right on time, the opening band Virgin Marys started playing. The Virgin Marys define themselves as an amalgamate of punk /grunge/rock, which I consider an excellent definition. Unfortunately it’s not my type of music (nor the type of sound that took me to this concert) and I was not able to enjoy.
The Virgin Marys played for around 45 minutes. Then a long waiting ensued.
Meanwhile, this was my first time at Lisboa ao Vivo, which changed its location to the Cabo Ruivo area. It’s an interesting venue for small bands, which wasn’t the case of the Sisters of Mercy (who used to sell out Coliseus) mas it seems it is now.
I cannot accurately evaluate the space acoustics since I don’t know the Virgin Marys. The sound seemed a bit too loud to me (and I was away at the back) but that can be the band itself.
What I did notice is that there aren’t any seating places anywhere. After an hour standing up my sciatica was already killing me and I had to seat on the steps leading to the mezzanine, which shouldn’t be done. So, this will be my first and last concert at Lisboa ao Vivo and from now on I’ll stick to Coliseum.
Around 10:30pm the Sisters of Mercy hadn’t yet started. My ESP was already whispering in my ear that there would be no concert, but I didn’t want to believe it. Ten minutes before 11pm someone from the organisers came to the stage and announced that the concert was cancelled. The attendants started to leave. One of them expressed the general feeling: “We were stood up!”.
Later we came to learn that Andrew Eldritch had left the venue on an ambulance but that The Sisters of Mercy played in Porto the following night.
I’m not angry, merely disappointed. This would be my last opportunity to see my favourite band. I’ll have to hold on to the memories of happier days.

terça-feira, 7 de junho de 2022

Dead Can Dance ao vivo no Coliseu de Lisboa (2.Junho.2022)

(Originalmente publicado em Gotika.)

As minhas desculpas pela má qualidade das fotos. O meu telemóvel nem sequer tem zoom.


Quinta-feira, 2 de Junho. Coliseu de Lisboa. Os Dead Can Dance dão o segundo concerto na capital, último de uma digressão de dois meses. É a primeira vez que vejo os Dead Can Dance em concerto, a única das minhas bandas preferidas que ainda não tinha visto ao vivo. (Com a funesta excepção de Joy Division, que nunca verei.)
Os sonhos são irreais e irrealistas. São intimistas e emocionais. Este texto não pode fugir-lhes.
Foi um sonho concretizado. Um sonho que durante bastantes anos julguei nunca realizar. Primeiro, porque a banda se separou e Lisa Gerrard e Brendan Perry se dedicaram a projectos a solo. Segundo, depois da reunião da banda, que já tinha actuado em Portugal nesta nova encarnação, devido a questões profissionais que não me permitem assistir a concertos como gostaria. Por fim, devido à pandemia, que parecia nunca mais acabar.
Já tinha comprado o bilhete e ainda não acreditava que era real. Só acreditei na sala do Coliseu, quando Lisa Gerard começou a cantar “Yulunga”. Era real, estava acontecer. No dia seguinte questionei-me se aconteceu de facto. Os sonhos também parecem muito reais quando estamos a sonhá-los.
Tenho a certeza de que a culpa foi minha, mas saí do Coliseu insatisfeita, como se nem tivesse lá estado. O concerto foi curto. Uma hora e vinte minutos e Brendan Perry disse-nos “Obrigado. Boa noite” em português correcto, e a banda preparou-se para sair. É claro que voltou, para mais um encore de 20 minutos. Uma hora e quarenta minutos e o concerto acabava. Brendan Perry disse que era o último da digressão e que estavam cansados. Talvez tenha sido isso? Ou talvez eu me tenha fartado de esperar pelo sonho de ver os Dead Can Dance e os tenha envolto numa expectativa irrealista que não pode jamais rivalizar com a minha relação íntima e inexprimível com a música que amo desde que a conheço, há tantas décadas que nem vou dizer quantas?
Lisa e Brandan revezaram-se, uma canção cada. Não me posso queixar da falta de êxitos. A banda percorreu a maior parte dos álbuns e todas as suas fases de evolução, e as boas canções são tantas (não existe uma canção má!) que se fossem tentar tocá-las todas ainda lá estávamos. A plateia encontrava-se repleta. Já as bancadas, não. Talvez pelo preço dos bilhetes, talvez por ser o segundo concerto em dias consecutivos, talvez ainda medo da pandemia? A verdade é que já vi o Coliseu a abarrotar muitas vezes, e não foi o caso. 

Mas o público que compareceu sabia ao que ia. Algumas palmas no início de canções mais conhecidas eram rapidamente silenciadas para não se perder uma nota do som, uma sílaba da voz. Em momentos, quando Lisa cantou, todo o Coliseu ficou em silêncio. Mesmerizado, como na canção. E não faltaram as canções hipnotizantes: “Yulunga (Spirit Dance)”, “The Host of Seraphim”, “Sanvean”, “Persian Love Song”, “Black Sun”, e, a minha preferida das preferidas, “Cantara”. Já tinha ouvido os Dead Can Dance em concerto numa fase de maturidade da banda e sabia o que esperar, mas nunca deixo de ficar impressionada com o poder transcendente daquela voz. Já não é a jovem Lisa que cantava “Cantara” em “Within The Realm Of A Dying Sun”. A voz encorpou, engraveceu, mas continua a ser a voz da Deusa. A interpretação de Brendan Perry está praticamente na mesma, quase nem se nota a idade.
Então, o que é que eu queria afinal? Mais canções? E quais, se há tantas? “The Cardinal Sin”? “Xavier”? “Summoning of the Muse”? “The Arrival And The Reunion”? “As The Bell Rings The Maypole Spins”? “Nierika”? Impossível escolher.
O que eu queria mesmo era ficar arrepiada, era sentir calafrios pela espinha abaixo. Já ouvi quem se referisse a um concerto dos Dead Can Dance como uma experiência místico-religiosa, já ouvi chamar-lhe ritual xamânico. Infelizmente, não senti a magia que queria sentir. Sim, abanei a cabeça, bati palmas, dancei na cadeira, não consegui tirar os olhos do palco. Mas a hipnose nunca me arrebatou, nunca me levou para o mundo fora do mundo onde costumo ir quando ouço Dead Can Dance em casa nos “dias certos”. Culpa minha, volto a dizer. Talvez a minha relação com a música, tão idealizada e adorada durante tanto tempo que já é só minha, nunca consiga rivalizar com a realidade dos intérpretes a tocá-la à minha frente. Mas não é verdade que as grandes obras ganham vida própria, que fogem aos criadores?
Saí com a sensação de “dever cumprido”, a última banda que me faltava, a voz da Deusa a ecoar-me na memória. Devia-lhe essa reverência e prestei-lha. Mas queria mais, queria arrepios, e isso não aconteceu.
Se esta review não tivesse levado o tom intimista que lhe quis dar, diria apenas que foi um concerto soberbo, impecável em voz e som e 100% profissional, auxiliado por instrumentistas de cinco estrelas, que só pecou por ser curto. O que eu queria, a transcendência, o sonho em vigília, o arrebatamento, depende mais do ouvinte do que do intérprete. É preciso que o ouvinte se deixe arrebatar. Se calhar não era o “dia certo”.

 

domingo, 11 de novembro de 2012

Rosa Crux ao vivo na Caixa Económica Operária 3.11.2012 [actualizado: foto]

[Foto de Nuno Consciência, gentilmente cedida via Abismo Humano.]


Estive quase para não ir ver. Muitos factores. Cansaço sobretudo. Antes de anunciado o concerto o nome da banda era-me apenas familiar. Não conhecia a música. Nisto entram ainda mais factores que não vou enumerar, mas saliento acima de tudo a falta de tempo para procurar música nova que me interesse (era diferente nos anos da adolescência, e este tema dava pano para mangas, mas não me vou alongar).
Os concertos têm tido, pelo menos para mim, o efeito de motivar a pesquisa. Foi o que fiz e descobri os Rosa Crux. Quanto mais os ouvia e via (existem online suficientes vídeos de performance ao vivo) mais me convencia de que devia ir.
Que o devia a mim própria.
Que o devia aos Rosa Crux.
Que uma banda como os Rosa Crux merece um obrigado presencial. E o apoio necessário para continuar.
Foi tudo cinco estrelas. Só faltou o público. Várias razões podem explicar que a Caixa Económica Operária estivesse a um terço da sua capacidade. Festas de Halloween, primeiro concerto de Dead Can Dance em Portugal a 24 de Outubro na Casa da Música, fim-de-semana propício a ponte que pode ter levado muitos (dos que têm possibilidade de ir) para fora de Lisboa, e, last but not least, a fatídica falta de dinheiro (dos que não têm possibilidade, ponto final).
Os Rosa Crux não se incomodaram com a escassez de público. Um público, porém, talvez demasiado tímido, o que motivou a que o vocalista pedisse às pessoas para se aproximarem do palco. As pessoas aproximaram-se. Timidez talvez de parte a parte uma vez que exceptuando o "bon soir", o pedido que não se fumasse para não prejudicar a voz, e o anúncio da música final, a que se seguiu o encore com mais dois ou três temas instrumentais, Olivier Tarabo sorriu muitas vezes mas não falou. Se problemas havia, com a voz, esta foi bem poupada porque não se notou qualquer falha.
Não tenho uma lista de temas (aliás, temeria errar se me aventurasse por aí) mas ouviram-se certamente os mais conhecidos, e até os outros, de tão bons, não pareciam desconhecidos. Não faltou a performance "La danse de la terre". Melhor do que descrever o que existe amplamente em imagens na internet, convido os leitores que não conhecem e/ou nunca viram ao vivo a ver por si próprios. Ao vivo não faz a poeirada que parece. Diria mesmo mais, eu que não sou nada adepta de performances teatrais deste género, logo completamente insuspeita de favorecimento, achei que a performance se passou com uma naturalidade que não colocou pessoas menos "teatralmente interactivas" (como eu) pouco à vontade. Confesso que tinha receio que acontecesse qualquer cena propícia a fobia social como o público ser convidado a participar. [Alguns artistas não compreendem que algum público não quer participar. Felizmente, não foi o caso.]
O facto de existirem na internet tantos exemplos do que a audiência pode actualmente esperar dos Rosa Crux (inclusive da participação no Entremuralhas 2011) suscita-me a inutilidade de entrar em mais pormenores. Tudo o que virem em vídeo é melhor ao vivo. Está tudo dito. Foi um bom concerto. Um grande concerto. Um dos melhores que já vi. Faltou o público. A banda não se importou. Merecia mais.

Rock gótico
Muitas vezes me perguntam o que é o gótico. Não vou responder a isso agora.
Muitas vezes me perguntam o que é a música gótica. A resposta é tão complexa que costumo responder que a música gótica é a música que os góticos ouvem. Tecnicamente não é bem assim, mas serve. Hoje, ao falar dos Rosa Crux, posso afirmar: isto é música gótica. Mais especificamente, rock gótico. Guitarra, contrabaixo, piano, sinos, coros, temas épicos, ritualísticos, melancólicos, sempre cobertos de obscuridade (no caso dos Rosa Crux tamanha obscuridade que as próprias letras são em latim), e acompanhamento electrónico suficiente. Pode não parecer importante, para ouvidos mais jovens, mas o rock gótico dos anos 80 (isto é, quando o rock gótico hoje chamado "clássico" foi inventado) era descrito como "voz grave, guitarra, baixo, caixa de ritmos". Na altura, o uso da caixa de ritmos a substituir a bateria era algo de inovador e ousado! Lembro-me de uma discussão sobre se os Cult eram ou não góticos porque usavam bateria em vez de caixa de ritmos. Os Fields of the Nephilim idem. É difícil explicar isto a ouvintes mais recentes mas nos anos 80 os géneros musicais também eram catalogados consoante os instrumentos que usavam. Era tudo muito compartimentado. As bandas de rock não usavam sintetizadores, as bandas de rap não usavam riffs de heavy metal, as bandas de heavy metal não usavam vocalizações pop. Era a Lei. Tudo o que saía destas "caixas" era um bicho de sete cabeças. Eram tempos simples, em que os Depeche Mode faziam música electrónica, ponto final, Madonna fazia música pop, ponto final, os U2 faziam rock, ponto final. Imaginem a nossa surpresa quando aparecem, nos anos 90, umas bandas esquisitas como os Rammstein, a usar sintetizadores e guitarras! Seria electrónico, seria rock, seria industrial?
Tudo isto para explicar porque digo que os Rosa Crux, embora o primeiro álbum date de 1995, seguem a base clássica "voz grave, guitarra, baixo, bateria e/ou electrónico", logo, o rock gótico como o conhecíamos. Sem preconceitos ou receios. É curioso notar que os Rosa Crux existem desde 1984, mas talvez o público não estivesse pronto para os Rosa Crux. [Outras bandas, como os Alien Sex Fiend, sofreram devido ao mesmo génio.] Eu própria me imaginaria, na altura, a torcer o nariz a toda a imagética de sinos, velas, caveiras, rituais, e a remetê-los para a secção "demasiado religioso para o meu gosto".
Os gostos, na altura, e maioritariamente, eram outros, não preciso de os enumerar agora, mas talvez seja mais do que tempo de reconhecer aos Rosa Crux o estatuto que merecem.
Se me pedissem um exemplo de rock gótico, presente, alive and kicking, dificilmente encontraria melhor.

sábado, 20 de setembro de 2008

Crítica: Concertos

CONCERTOS

And Also The Trees, Teatro José Lúcio da Silva, Leiria, 06.03.10, por ebola

ChameleonsVox, Santiago Alquimista, Lisboa, 3.7.10, por katrina a gotika
ChameleonsVox, Santiago Alquimista, Lisboa, 3.7.10, por ebola

Christian Death 1334, Caixa Económica Operária, 1.12.07

Dead Can Dance ao vivo no Coliseu de Lisboa (2.Junho.2022)

Diamanda Galas, Teatro José Lúcio da Silva, Leiria, 16.04.11

Fields of The Nephilim, Coliseu do Porto, Porto, 06.02.10, por ebola

Graveyard Sessions nº. 35 (Archétypo 120 e Bal'Onirique), Santiago Alquimista, Lisboa, 23.01.10, por ebola

La Chanson Noire, Musicbox, Lisboa, 09.12.09, por ebola

Lock The Target (Ezylhom_Tek, Lokomotiv, Attrition), Maus Hábitos, Porto, 02.10.2009

Mão Morta "Maldoror", Culturgest, Lisboa, 23.04.08

Mão Morta "Ventos Animais", AMAC, Barreiro 9.5.2009

Marilyn Manson, Pavilhão Atlântico, 19.11.07

Messer Chups, Armazém do Chá, Porto, 05.06.10

Moonspell/Sombra, Cinema S. Jorge, 31-10-2010

Mr. Joe Black + La Chanson Noire, Maxime, Lisboa, 15.10.10

Nick Cave & The Bad Seeds, Coliseu, Lisboa, 21.04.08

Peter Murphy, Coliseu, Lisboa, 01.11.08

Peter Murphy, Casa da Música, Porto, 01.11.09

Rosa Crux, Caixa Económica Operária, Lisboa, 03.11.12

Swans, Aula Magna, Lisboa, 09.04.11

The Chameleons + Decline And Fall - RCA, Lisboa,18.Jun.2025 - Uma noite muito calorosa / A night of warmth

The Cure, Pavilhão Atlântico, 08.03.08, por ebola
The Cure, Pavilhão Atlântico, 08.03.08, por DaucusKarota

The Psychedelic Furs, Coliseu de Lisboa, 19-10-2010

The Sisters of Mercy – Lisboa ao Vivo – 26.Outubro.2023 - Lisboa – crítica ao concerto / The Sisters of Mercy – Lisboa ao Vivo – October 26th 2023 – Lisbon – a review